Família de brasileiro preso por mortes no Chade diz que ele se sentia perseguido

A família do legionário brasileiro preso no Chade sob acusação de matar quatro pessoas disse que ele estava se sentindo perseguido.


Josafá de Moura Pereira tem 26 anos e ingressou na Legião Estrangeira em janeiro de 2006, diz a família dele. É o caçula de 12 filhos e foi atrás do irmão Jeremias, de 31 anos, que também está naquele Exército. Na periferia de Santo André, no ABC Paulista, os parentes estão com medo e não querem aparecer.

Uma das irmãs afirma que Josafá é um rapaz bom e que mandava dinheiro para ajudar a família. "Ele nasceu no berço evangélico. O caráter dele é íntegro. ele é um moço quieto, trabalhador, ajuda muito a família", disse.


Mas o brasileiro andava abalado nos últimos meses, segundo a família. Em telefonemas e mensagens pela internet, ele contava que vinha sendo perseguido por alguns dos legionários. De acordo com os parentes, cerca de três meses atrás, em outra missão na África, ele chegou a fugir, mas foi encontrado.

“Ele falou que estava aflito, com muito medo. Ele não queria fazer nada de errado, mas ele estava sendo muito tentado. O pessoal estava 'tipo' oprimindo ele, e por isso aconteceu algo que a gente ainda não sabe o que é”, disse a irmã.

No computador da família está registrada a última mensagem dele para a família. Escrita no último domingo (5), véspera do crimes dos quais ele está sendo acusado: “Tentei ligar aí para casa hoje três vezes mas ninguém responde. Manda um grande abraço aí para toda a família ok. fica com deus.”

O brasileiro foi preso nesta quinta-feira (9), numa vila do Chade, depois de dois dias vagando pelo semi-árido, sem água nem comida. Na terça –feira (7), no campo de Etoile, perto de Abeche, no leste do Chade, ele matou dois colegas legionários, um soldado do Togo, das forças de paz da ONU, e um camponês, de quem roubou o cavalo para fugir.

  

Mapa mostra onde fica o Chade (Foto: Arte/G1)

Ele estava há dois anos na Legião Estrangeira - uma força armada francesa, criada no século XVIII, e composta na maioria de voluntários estrangeiros. Em torno de 150 brasileiros servem nessa força de elite, famosa por treinar sob imensa pressão física e psicológica. Quem se alista na legião é obrigado a servir por cinco anos, perde o vínculo com seu país, muda de nome, e jura servir à França.

O Ministério da Defesa disse em comunicado oficial que o brasileiro teve um acesso de loucura ao usar sua arma contra seus camaradas.

Uma fonte da Legião Estrangeira, que não quer ser identificada, disse que ele é de Santo André e usa o nome de Paulo da Silva. A mesma fonte disse que ele estava deprimido nos últimos meses. No ano passado, o brasileiro tentou fugir da legião, e foi recapturado. Ele foi pra África porque um sargento garantiu que ele estava bem. O sargento foi o primeiro a ser morto na terça-feira.

As autoridades do Chade devem entregar o brasileiro às autoridades francesas para que ele seja julgado pelo Tribunal Militar em Paris. O Ministério das Relações Exteriores determinou que a Embaixada Brasileira na Nigéria apure o caso e veja o que pode ser feito para ajudar o legionário. O Brasil não tem representação diplomática no Chade.

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